História de vinho
Um leigo à descoberta do vinho 6
Ainda há quem acredite que a aguardente é uma verdadeira obra do diabo; outros atribuiriam esse título antes ao açúcar ou aos filmes com Nicolas Cage, mas poucos conhecem a verdade. As provas de vinho são a verdadeira obra de Satanás.
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por William Powell
Sob esta superfície culta e civilizada dormitam o caos e a tentação… de fazer quase tudo! Nunca fui a uma prova de vinhos que não tivesse consequências «memoráveis».
Traiçoeiros e maldosos
Uma das consequências mais inofensivas foi o rosé «meio seco» que, certa vez, morou durante meses na nossa cave. Numa inocente degustação numa feira industrial, deixei-me «convencer» a comprá-lo. Corja traiçoeira — quem espera encontrar aqueles tipos num evento daqueles? E ainda por cima tinham por lá umas bruschettas realmente deliciosas. Talvez um pouco salgadas, mas para isso tinham os copinhos de vinho, não era? E, antes que desse por isso, a transportadora já me tinha trazido seis caixas daquela coisa que, no fundo, só se conseguia beber quando já se estava bêbedo… ou depois de comer bruschettas salgadas em quantidade suficiente. Ou ambas as coisas.
Os segredos da prova de vinhos
Também já fiz coisas bem diferentes em provas de vinhos — ou talvez seja melhor dizer depois delas. Entre outras, ganhei um concurso de poesia declamada. Quem me conhece há mais de 10 minutos costuma já suspeitar que tenho com a poesia um acordo semelhante ao que tenho com o vinho. Sei que há poesia boa e acredito que até já li ou ouvi alguma… mas eu próprio não sou capaz de a distinguir, nem de a produzir. Por isso, também não consigo explicar como foi possível nascer a obra «O Tio Tom no País das Cabanas Encantadas». Nem como acabou aquela noite idiota com a distinção de «especialmente valiosa». Talvez os jurados tivessem estado antes na mesma prova de vinhos…
É assim que decorre uma prova de vinhos
A sua mais recente joia
A última vez que caí na esparrela foi quando o pai de uma boa amiga, numa das nossas visitas lá a casa, me chamou de parte e quis, «a todo o custo, mostrar-me a sua mais recente joia». Claro que era um vinho, mais precisamente um tinto chamado Hensel und Gretel, que tinha trazido de uma das suas pequenas excursões. Não sei mesmo por que razão o pobre homem tenta, uma e outra vez, expor os seus tesouros ao meu paladar tão mal treinado, mas não desiste. Mesmo que pareça ficar invariavelmente horrorizado com as minhas reações — como aconteceu também desta vez.
Uma tática diferente
Experimentei uma nova tática e disse-lhe que detetava um sabor a cereja (na verdade, não me sabia a nada disso, apenas o tinha ouvido dizer algures!). O olhar que me lançou era verdadeiramente digno de se ver. E lá começou tudo outra vez: pôs-me à frente um vinho que devia saber ligeiramente a cereja. A partir daí, fomos avançando cautelosamente até aos mais simples, saltámos para os brancos e ainda fizemos um desvio pelo vinho aromatizado (graças ao Retsina, não cuspi).
Pequenos, mas poderosos
Tudo em copinhos verdadeiramente minúsculos. Com água e pão pelo meio. Durante quase duas horas. A minha mulher ainda hoje me censura por não só ter tido de me levar de carro para casa, mas também de me carregar escadas acima e atirar-me para a cama. Estava tão bêbedo que já não conseguia fazer nada disso sozinho. Por falar na minha mulher e em provas de vinhos. Até ter ido com ela a uma dessas provas, não tínhamos outra relação além de sermos colegas. Depois fomos a uma prova de vinhos. Agora estamos casados e temos dois filhos maravilhosos. Já disse que, no fundo, acho as provas de vinhos fantásticas?

Die Weinpost


